Transplantes 1261
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Ivo Martin

Ivo MartinIvo Martin, data de nascimento 11/07/1948, nascido em Blumenau, e iniciado hemodiálise em agosto de 1979.

1. Quando teve os primeiros sintomas renais?
R: Aos 5 anos de idade, após uma gripe muito forte, com amigdalite, e apareceu sangue na urina. Meus pais levaram-me ao farmacêutico (era uma prática comum nas doenças que achavam mais corriqueira procurar o farmacêutico, não havia tanto médico, como agora), que me receitou descanso e alguns antigripais.

2. E surgiram outros episódios de sangramento urinário (hematúria)?
R: Sim o problema voltou 1 a 2 anos depois,quando fui recomendado ao médico da família, que recomendou repouso absoluto e dieta sem sal. Lembro que naquela idade, sua recomendação foi uma tortura, e só o controle austero dos meus pais me fazia cumprir a dieta e o repouso

3. Houve internação hospitalar naquele período?
R: Sim, fui internado por duas semanas no Hospital Santa Catarina, e na verdade foi conseqüência da minha rebeldia em aceitar a dieta e o repouso absoluto.

4. E o problema se resolveu?
R: Infelizmente não, os anos se passaram e sempre que gripava muito forte com amigdalite, voltava a urinar sangue.

5. Não foi tentado nenhum outro procedimento visando a cura?
R: Sim, muitas fórmulas caseiras, e até indicada retirada das amígdalas pelo Dr. Sylvio Aurélio Schmitt, que era na época o especialista de doenças renais da cidade (ele é Urologista, e foi ele que trouxe o primeiro clínico de rins, que hoje conhecemos bem por Nefrologista para Blumenau). Como havia muita controvérsia referente a retirada das amígdalas, acabei não me submetendo a esta cirurgia, o que na minha opinião foi um erro. Estou até convencido disso, e quando meu filho, mais moço, aos 22 anos, começou a ter os mesmos sintomas que tive (hematúria nas amigdalites) forcei a retirada das suas amídalas, e já se passaram quase 4 anos, e ele não teve mais crises e nem apareceu mais sangue na urina dele.

6. Quando seu quadro renal piorou?
R: Até os 14 anos tive crises de hematúria todos os anos, depois fiquei anos sem que o problema aparecesse. Na verdade neste período eu fazia muita atividade física, praticava regularmente basquete, punhobol, futebol e natação. Por isso minha condição física era excelente, e até prestei o serviço militar.
Aos 24 anos, quando me casei pela primeira vez, estava muito bem, mas me submeti a exames (check-up) antes do casamento, e o exame de fundo de olho mostrou que tinha "problema de rim". 
Quatro depois comecei a sentir ardência na "boca do estômago", procurei um especialista da área, pois achava que tinha gastrite. Este Gastroenterologista notou que minha pressão estava alta, questionou se já apresentara problemas renais, e com minha resposta positiva, me encaminhou ao Nefrologista, com quem estou "enrolado" desde 1976.

7. E que lhe disse esse Nefrologista na ocasião?
R: Alertou que a situação era séria, havia pouco mais de 10% da função renal.

8. Que providências foram tomadas na época?
R: Muita coisa, tratou a hipertensão, submeti à biópsia renal, me enviou ao seu Professor em Curitiba (Dr. Adyr Molinari), sem sucesso, pelo que se confeccionou a fístula artério-venosa, naquele tempo feita pelo Dr. Newton Motta, atual Secretário de Saúde de Blumenau. 
(Veja abaixo o que é fístula artério-venosa)

Fistula artério-venosa

9. Qual foi impacto emocional que sentistes com a fístula artério-venosa?
R: Meio deprimido, pois era difícil de acostumar a idéia de ter uma veia bem saliente no braço e a curiosidade das pessoas olhando para o braço fixamente e pensando sei lá o que.

10. E quando começastes a dialisar? 
R: Em 1979, foi meio dramático, pois na época muito pouco se conhecia de hemodiálise, havia apenas quatro pacientes na hemodiálise (D. Ruth, Sr. Edemar, Juvenal e Anor). Além disso minha fístula custava para "amadurecer", eu tinha muito medo de fazer diálise peritoneal.

11. Lembras-te da tua primeira hemodiálise?
R:Sim, fiquei deitado em uma maca dura por 5 horas, apavorado.

12. E a vida em hemodiálise 3 vezes por semana?
R: Ficou de cabeça pro ar. Tudo era muito difícil na época, o médico era pouco experiente em hemodiálise, a enfermagem se resumia a uma atendente de enfermagem (a Ernestina). A sala e os móveis eram precários. O equipamento, comparado com o de hoje, era uma carroça. O banho era preparado com água da rede, sem tratamento específico, e a solução de hemodiálise era a base de acetato (hoje na base do bicarbonato), o filtro era na forma de espiral, e por isso se chamava pela palavra inglesa correspondente "coil" (hoje o filtro é do tipo capilar (multifibras). 
Na rua as pessoas nos olhavam (a nós pacientes renais) como "coitados", com a aparência que tínhamos na época tínhamos que dar razão aos que assim pensavam, a sobrevida em hemodiálise era de 3 anos.
(Veja abaixo um esquema de dialisador do tipo coil)

Dializador do tipo coil

13. E como te adaptastes a essa situação?
R: Até que tive boa adaptação; fui muito radical nos dois primeiros anos, obedecendo a prescrição médica, e me dei mal pois a dieta era muito rigorosa, mas de uma maneira geral estava bem consciente de meu problema e aceitei bem o tratamento. A meu favor tive a não necessidade de sangue, meu hematócrito sempre foi normal, e isso pesava muito na época que não tínhamos injeções de eritropoetina (isso é coisa relativamente recente, à disposição para alguns há uns 10 anos e para todos há uns 5 anos).

14. Como é o tratamento hoje?
R: Mudou da noite para o dia.
Hoje temos uma boa sala de hemodiálise, móveis adequados, equipamentos de ótima qualidade, água tratada, pessoal especializado. Volto a comparação: "antes andávamos de carroça, hoje de carro importado". A medicação melhorou muito, hoje temos dialisadores de alta qualidade, medicação apropriada e disponível para anemia e quelantes de fósforo como Carbonato de cálcio e Renagel, e outros recursos mais.

15. Quase 27 anos de hemodiálise, por que não transplante?
R: Submeti a um transplante de doador cadáver, em Curitiba, em 1993. Não fui bem sucedido; tive uma queda severa de leucócitos, e os médicos tiveram que retirar toda medicação exceto o corticóide, acabou havendo rejeição.

16. E nestes 27 anos só fizestes hemodiálise em Blumenau, exceto aquele pequeno período de pós transplante?
R: Não, andei morando em Vitória e lá fiz hemodiálise por quase um ano, foi uma excelente experiência.

17. Voltando ao transplante, o que achas de fazê-lo outra vez?
R: Rejeitei a idéia por muito tempo, mas desde janeiro 2005 estou inscrito "nessa dita" fila de transplante.

18. Não entendemos o "nessa dita" fila de transplante?
R: Acho no mínimo esquisita, pois não há transparência.

19. Quais as conseqüências de tantos anos em hemodiálise?
R: Muito sérias, tenho doença óssea severa, problemas do coração (uso marca-passo), quebrei as duas cabeças dos fêmures, coloquei prótese bilateralmente, perdi altura media 1,73 m e agora 1,54 m, tenho de deficiência respiratória por deformidade torácica adquirida. Meu fósforo foi alto por muito tempo, e o alumínio do tempo da água não tratada deve ter contribuído.

20. O que farias de diferente se começastes de novo, zerinho na hemodiálise, sem essas "mazelas" adquiridas?
R: Tentaria o transplante mais cedo, ou melhor voltar a me inscrever na fila de transplante após o insucesso da primeira tentativa.
Orgulho-me, porém do tempo de tratamento, pois apesar de tudo ainda estou vivo, e olho para outros casos sem solução ou em situação pior.

21. Qual tua perspectiva de vida no momento?
R: Apesar da resposta a pergunta 19, estou numa fase muito boa, estou a espera do rim para transplante sem estresse, estou convencido que tanto na máquina como com rim novo o melhor que faço é me cuidar, para tanto consciência e conhecimento são importantes.

Ivo Martin Ivo MartinIvo Martin