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Espera impaciente

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Apesar de o Estado ter a segunda menor fila de espera, busca por transplante ainda angustia quem aguarda por um órgão ou tecido para continuar vivendo.  A SC Transplantes aponta que 39% das possíveis doações se concretizam

Um copo de água. É do que Selene Flohr, 47 anos, mais sente falta. O gelo que é orientada pelos médicos a consumir não mata a sede que tem. Sentada na sala de hemodiálise da Associação Renal Vida, em Blumenau, vê o sangue sair da artéria, passar pelo dialisador e voltar ao seu corpo, limpo. Repete o tratamento três vezes por semana durante três horas. A espera por um novo rim já dura dois anos e meio. Selene está na lista de 1,2 mil pacientes que aguardam por órgão ou tecido em Santa Catarina. A maior demanda é por córnea, 522, e rim, 460.

O Estado tem a segunda menor fila de espera e o maior número de doadores efetivos por milhão de habitantes em relação às demais regiões do país. No entanto, das 256 notificações de potenciais doadores por morte encefálica, de janeiro a agosto deste ano, apenas 100 pessoas doaram efetivamente, o equivalente a 39%. Para o médico Joel de Andrade, coordenador da SC Transplantes, três fatores impedem que o percentual de transplantes seja ainda maior:

– Doadores existem, mas o grande desafio é identificá-los, mostrar à família a importância da doação e fazer a manutenção clínica dos órgãos.

O assunto voltou a ganhar força no Vale do Itajaí há 10 dias, quando uma série de coincidências permitiu que Eva Pires de Moraes, 38 anos, recebesse um novo coração no Hospital Santa Isabel. Até sexta-feira, ela seguia internada em recuperação, da cirurgia e de uma pneumonia.

Andrade relata que, quando há confirmação da morte, os hospitais que fazem retiradas de órgãos – 45 em todo Estado – e informam à SC Transplantes. Mas, muitas das unidades deixam de comunicar. Outro problema enfrentado é a manutenção clínica dos órgãos do doador, após a morte encefálica. Isto é, eles têm de estar em boas condições e serem retirados, muitas vezes, antes da parada cardíaca para serem usados em transplantes. Entre todos os três processos para viabilizar o procedimento, a situação mais crítica e delicada é a entrevista com a família, que ocorre logo após o encaminhamento do atestado de óbito.

– Os parentes precisam consentir a doação. Devem ter um alto grau de interação com os médicos e todas as dúvidas esclarecidas. A família tem de estar confortável – explica Andrade.

Quando o paciente perde alguns dos reflexos cerebrais, a equipe médica começa a suspeitar que ele está em morte cerebral e inicia exames de diagnóstico. Se há confirmação, a conversa entre enfermeiros, médicos e família é feita precocemente, segundo a médica intensivista do Hospital Santa Isabel Karine Becker Gerent:

– Abordamos os parentes quando percebemos que o paciente é um potencial doador. O trabalho da equipe faz com que as famílias sintam segurança com o diagnóstico e tenham informações suficientes para autorizar a doação.

Esse procedimento, feito com muito diálogo, garante que o Santa Isabel forneça 20% dos órgãos para o Estado, de acordo com a SC Transplantes. A equipe consegue um maior aproveitamento dos potenciais doadores e faz com que a cultura da doação no hospital seja referência estadual.

– Desenvolvemos técnicas de conversas com a família. Orientamos e acolhemos os parentes e eles acabam se colocando no lugar de quem espera por transplantes – explica a médica intensivista.


Fonte: JORNAL DE SANTA CATARINA